A modorra. A modorra encontrou-me hoje de manhã, ainda estava eu a tentar levantar-me da cama. Os despertadores, os vários que espalhei pelo quarto, ainda tentaram dar luta, esfaquear a modorra mal ela se abeirava da minha cama para me beijar. Vocês devem conhecer estes beijos, mas não conhecem o meus despertadores. Falharam redondamente, e o beijo foi delicioso e duradouro. Puxei até o edredon um pouco mais para cima, ajeitei as almofadas, tudo isto enquanto o hálito da modorra invadia as narinas e interrompia alguns pesadelos.
A modorra é fixe, pois sabe que naquele momento devo poupar energias, pois o grande gasto é sempre a seguir. E não, não se tratava de fumar um cigarro. Falo mesmo do pesadelo de ir trabalhar após o beijo da modorra.
O dia foi penoso, a carcaça arrastou-se, as tarefas iam sendo engolidas qual óleo fígado de bacalhau, em colheres largas e fundas. Em abono da verdade, sei que não dei nas vistas, sei que não transpareci o meu torpor e ninguém me viu aos alpapões à modorra, num qualquer beco mal iluminado.
Mas apavora-me a dúvida: Meu deus, será que amanhã ainda vou estar comprometido com a modorra? Eu preciso de mim para viver…
